sexta-feira, 16 de abril de 2021

Prazer, Esse Sou Eu!

 

 

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1. O começo

1.1 A fase de se aceitar

2.Descobrindo

2.2 O fim da depressão

3.Negro/Pobre/Gay

4.Por você/Considerações Finais


 

 

 

 

 

 

1. O Começo

 

Quero começar com uma frase da Madame C. J. Walker que diz: “Agora que aprendi a contar minha história, não posso mais ficar em silêncio.”

 

-Vamos para uma simples observação e espero ajudar aos muitos jovens que passam pela mesma situação.

Então, como um jovem decidi que deveria fazer um começo diferente do típico “Era uma vez” e decidi começar com um simples “Então”.

Vamos lá para o começo que se encontra em 2014.

Começando a relatar a vida de um típico jovem de 19 anos que foi nascido e criado dentro do estatuto religioso, que sempre teve o medo de viver fora daquela vida e que parecia não fazer sentido viver sem estar preso no sistema, com o básico medo de sair da igreja e ser lançado no inferno (lógico que na concepção humana).

Sabe, chega ser engraçado mas é a realidade de muitos e no ano de 2014 estava começando a me descobrir como um homossexual e já estava ficando estranho aquilo tudo ,acabei desencadeando a depressão que infelizmente é vista como uma consequência do “pecado”.

Os meses foram passando, o desejo aumentando junto com o sentimento de repressão, aquela angustia de que se me libertasse iria ser consumido e que nunca mais seria feliz.

E claro, estando dentro da igreja, tive um relacionamento com várias meninas adoráveis mas sabia que aquilo não estava me satisfazendo, os desejos do meu corpo, do meu ser. Lidando com meu “desejo carnal” reprimido, sempre chorando  e querendo uma forma de morrer pra não viver mais com esses sentimentos que estavam me fazendo viver querendo que cada dia fosse o último, desejando ter o poder de acabar com aquilo.

 

1.1 A Fase Da Aceitação  

 

No começo de 2015, estava ativo com minha vida na igreja e fazendo várias viagens de ministério e participando da gravação de um CD gospel decidi parar e fazer uma pequena viagem para Buenos Aires e estava tudo indo bem, conheci pessoas maravilhosas, fiz passeios incríveis, encontrei uma prima e seu esposo que estavam lá passeando e posso dizer o quão perfeito estava sendo.

No penúltimo dia fui convidado para cantar em uma igreja, e pensei: “Amanhã vou embora e quero zoar”, então fui para um bar perto do hotel e marquei de encontrar um carinha que havia conhecido.

Mandei uma mensagem, bebi bastante vinho pra ficar engraçado e do nada chegou aquele cara, ficamos naquele bar conversando e o mesmo me convidou para ir até a casa dele (sei que fui um pouco irresponsável por estar em outro país e ir pra casa de um estranho).

As horas foram se passando, meu voo marcado pra bem cedo não quis saber e finalmente cheguei ao apartamento dele, e sim, nós ficamos! 

Tive minha primeira experiência e tinha sido incrível, mas tive de me despedir para voltar no hotel e arrumar minhas malas, peguei o taxi e finalmente estava no hotel. Fui dormir, acordei e peguei o primeiro avião de volta pra casa.

Cheguei e se passaram mais uns meses e decidi que iria aos poucos abrir mão de tudo e foi quando tive um problema com a galera do coral e decidi abrir mão de gravar com eles.

Ainda na igreja conheci uma menina que colocou na cabeça que tinha de me namorar (Ainda essa história), então ficamos em um relacionamento de quase 3 dias e decidi não levar a frente, pois não podia viver mais na mentira de uma pessoa que não era eu.

 

2.A Descoberta 

Os meses se passaram, tinha completado meu vigésimo aniversário e então decidi ir a primeira parada LGBT DA MINHA VIDA.

Disse que iria com uma amiga e lá fui eu, já no metrô aquela bagunça maravilhosa fiquei muito impressionado e contente por ser eu mesmo e estar naquele lugar beijando pra caramba, até que estava beijando um menino e para minha surpresa estava meu irmão gêmeo, junto do meu primo e um amigo deles.

 Eles olharam para mim fazendo sinal de reprovação e foram embora.

Chegando em casa falei com minha amiga/irmã sobre o ocorrido, ela se comoveu e pediu para que dormisse na casa dela, mas decidi ir pra casa e enfrentar logo tudo...

Fiquei uns dias sem o meu gêmeo falar comigo, até que ele pediu uma ajuda minha e decidi ajudá-lo.

Depois de um tempo decidi conversar com ele e disse sobre o ocorrido e ele me disse:

“Quer ser gay? Seja, mas não conte para as pessoas”

E uns meses se passaram e já havia dito sobre com ele e meu irmão caçula.

Até que no nosso aniversario de 21 anos ele me chamou e disse:

“Quer ser gay? Seja! Mas é pra ser mesmo e se alguém mexer contigo, vai estar mexendo comigo. Vou meter a porrada!”

Gente, isso foi totalmente confortante, pois ele estava do meu lado!

 Mais um tempo se passou e numa tipa briga familiar decidi entrar no meio e gritei: EU SOU GAY!

Tudo se movimentou de uma forma tão louca que me deixou louco, claro que não deve ser fácil para a família saber e aprender a lidar com um parente gay, pensa só: viver perante uma família conservadora, com a mente totalmente fechada para as pessoas, pois vivem que ser cristão é o único caminho.

Como assim o único caminho é viver obedecendo a doutrinas estabelecidas pelos homens e não por Deus?

O tempo foi se passando e comecei aos poucos a me aceitar, pois temos sim essa fase.

E temos que nos permitir viver cada processo, cada experiência de aprendizado, pois devemos a cada dia procurar a evolução, a cada dia tentar ser melhor.

Comecei a contar para meus amigos de perto e eles sempre diziam: já sabia que você era gay, só precisava se aceitar.

E sim, descobri que tinha amigos únicos que abriram os braços para mim, que me aceitaram e que vejo o quão amado sou e que aquilo seria uma luta diária.

Dentro da minha casa posso dizer que não sou aceito, mas luto diariamente para que me respeitem naquilo que sou.

E nesse tempo li uma frase que diz: “Se for para mudar, mude pela única pessoa que vale a pena: você.

 

2.2 O Fim Da Depressão  

Os crentes (não todos) tem o prazer de dizer que a depressão é totalmente e a falta de Deus.

Mas como eu poderia estar com depressão se estava renunciando o “tal pecado” para ter uma vida reta perante o “DEUS”?

Comecei a entender que se fosse continuar dentro da igreja não estaria sendo eu mesmo, sabe? Estaria vivendo uma verdade que não era mais a minha.

Comecei a observar que DEUS tinha algo para ser tratado no meu interior, quero trazer esclarecimento que Deus é amor.

Se ele é amor, por qual motivo lançaria no inferno um casal gay que se ama? Comecei a me perguntar se era isso mesmo e graças as pessoas iluminadas que apareceram por intermédio de Deus e do Universo, pude entender que os Seres Divinos tinham coisas mais importantes a fazer do que punir o povo LGBT.

Então graças a essas forças comecei a entender e comecei a passar por uma espécie de tratamento de cura da depressão. Se dói? Muito!

Foram dias doloridos, continuava chorando e parecia que não ter fim.

 Confesso que foi a minha fase de mais noitadas, ferveção, boates, farras etc...

Não queria ficar em casa e não podia, pois tinha que ficar o máximo afastado do meu quarto e não queria lembrar o sentimento voltando (e quem quer?).

Mas quando finalmente me vi livre daquilo, comecei a me sentir único e espetacular, sabe?

Nasceu um novo Fabio, um jovem GAY!

 

3.Negro/Pobre/Gay  

Só o negro sente o que é o Racismo;

Só o gay sabe como é viver perante uma sociedade homofóbica;

Só o pobre sabe como é a discriminação social;

Imagina só ser esse combo completo?

Entre 2012 e 2017 o IBGE registrou que no Brasil o total de mortes por racismo chegaram exatos 255 vítimas;

As pesquisas afirmam que a cada 16 horas 1 LGBT é morto vítima da homofobia.

Sem contar a classe média baixa que aos poucos são engolidas pela a grande tirania.

Permito-me sempre lembrar as vezes que tinha vergonha de reconhecer minhas raízes, não como pobre, mas como ser negro.

Mas não me culpo, pois viver numa sociedade que tem o prazer de discriminar o cidadão pela cor de sua pele, já crescemos não vivendo, mas sim sobrevivendo.

Recentemente ouvi um jovem branco dizer numa roda de amigos a seguinte frase:

“A polícia não foca só nos negros, vocês que se vitimizam”.

Oi?!


Na hora me senti ofendido, então disse:

“Não queira falar que negro se vitimiza, pois você não é negro e não se encontra no lugar de fala.”

Sabe o que é você entrar dentro do ônibus e a pessoa se levantar só por ter sentado ao lado e ficar te olhando de cima a baixo com cara de recriminação e nojo?

Não!

Sabe o que é a polícia parar o transporte e mandar somente você descer, te revistar e perguntar se é usuário de drogas só pela sua cor?

Não!

Então pedi para ele se calar, pois estava passando vergonha naquele momento e estava feio.

Voltando para essa fase de aceitação comecei a ter um novo ciclo de amizades.

Homens e mulheres negros de favelas do Rio de Janeiro e foi algo surreal estar no meio do meu povo, da minha família de luta, de uma causa que sempre vamos carregar e ouvi a seguinte frase:

“Existe uma história do povo negro sem o Brasil, mas não existe uma história do Brasil sem o povo negro.”

Posso dizer que fui agraciado por ter nascido preto, nasci com uma história marcada na minha pele, nasci com a lembrança da luta dos ancestrais e com a certeza de que não foi em vão e que a luta jamais terminará.

 

4.Por você/Considerações Finais    

 

Quero frisar algo: Você, negro/índio/Gay não tenha medo de suas origens, quero focar primeiramente em todas as mulheres negras que lutam nessa sociedade para ter um lugar de fala e também todas lutaram e hoje se tornaram sementes para que nunca venhamos desistir de ser quem somos.

Venho aqui frisar nome de umas das pessoas:

Primeiramente a minha Bisavó Esmeralda Mendes de 96 anos que me disse:

“Filho, você gosta de homem? Então seja feliz e não deixe que ninguém venha dizer que está errado, se permita viver esse amor.”

Também tenho que agradecer a Dandara, um símbolo da resistência negra e do feminismo;

E também uma grande mulher chamada Marielle Franco, mulher preta, gay e favelada, pois

foi silenciada defendendo o povo dela, e sim, é uma mulher que se tornou referência na minha vida e virou uma semente. Uma das citações dela que enraizou no meu ser é a seguinte:

“Quantos mais precisarão morrer para que essa guerra acabe?”

Também a Machado de Assis, Martin Luther King Junior, Nelson Mandela e ao Pastor Henrique Vieira e não me esquecer Júnior Dantas mais conhecido como o Pequeno Príncipe Preto.

Essas são um pouco das pessoas que me inspiram ser quem sou.

Lutem pelos que são, não vamos deixar que a sociedade venha nos calar por ser quem somos!

E não se esqueçam: Sejam Livres e Felizes!

“Sou o que sou pelo que nós somos.”

UBUNTU.
                                                                                                         29/07/2020
                                                                                                 

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